9 de agosto de 2009

Hoje estava capaz de me ir embora: pegar nas chaves do carro sem motivo nenhum

(as chaves estão sempre no prato da entrada)

descer as escadas

(não descer pelo elevador, descer as escadas)

até à garagem da cave, ver o fecho eléctrico abrir-se com dois estalos e dois sinais de luzes, ver a porta automática a subir devagarinho e logo na rua acelerar o mais depressa possível, queimando semáforos, na direcção da auto-estrada, sem ligar aos painéis que indicam as cidades e a distância em quilómetros, sem uma ideia na cabeça, sem destino, sem mais nada para além da pressa de ir-me embora, colocar entre mim e mim o maior espaço possível, esquecer-me do meu nome, dos nomes dos meus amigos, da minha família, do diário que deixei não sei onde no Estoril e me persegue. Parar num desses restaurantes das bombas de gasolina à beira das portagens e comer sem olhar para ninguém, sem reparar em ninguém nem sequer nas crianças que correm entre as mesas e acelerar de novo segurando o volante com força tal como em pequena segurava o guiador da bicicleta enquanto o meu pai

ou a minha mãe?

julgo que o meu pai, corria ao meu lado ensinando-me a pedalar.

Hoje estava capaz de me ir embora: as paredes de casa apertam-me, tudo me parece tão pequeno, tão inútil, tão estranho. Entrar na cozinha. Fazer o almoço. Servi-lo. Esperar pela refeição seguinte. Apagar o fogão. Servi-la. Atender a meio da tarde a voz do meu marido a saber como estou, receber as cartas da Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar os telefonemas e as cartas também. Hoje estou mesmo capaz de me ir embora antes que fique louca como os cães, correndo em círculos na noite. Se chegar à janela verifico que o frio humedeceu de orvalho as tampas dos caixotes do lixo e apenas uma janela acesa num prédio lá em baixo. Dir-se-ía que mais ninguém senão eu continua viva. Eu e o telefone que apesar de calado parece prestes a romper aos gritos. As minhas costelas respiram contra o vidro. No parque de estacionamento em frente à casa um pombo morto. Ou uma gaivota. Um bicho qualquer. As tampas dos caixotes do lixo reflectem os candeeiros em nódoas coalhadas e fixas. Faço-me uma careta nos caixilhos.

Hoje estava capaz de me ir embora. Metia todo o dinheiro da gaveta no bolso, deixava aqui a mala, os documentos, os sinais de quem sou. Se me perguntarem o que faço responder que não tenho profissão. Sou apenas uma mulher num restaurante das bombas de gasolina à beira de uma portagem, a mastigar calada. Pode ser que volte um dia, pode ser que não volte. O que dirão os meus sogros, os vizinhos, o meu filho? Comentários indignados que nunca escutarei, segredinhos, profecias de escada, o director do meu emprego a exigir o relatório que deixei incompleto por alturas do último considerando, por corrigir, por alterar. O que me rala? Lombadas e lombadas de códigos supérfluos na estante, revistas de Direito que me são indiferentes agora, os livros de batalhas do meu avô com retratos de milicianos em Espanha. Um deles, com o ombro entrapado, fita-me de cachimbo na mão. Talvez, para além do dinheiro da gaveta, levasse comigo o soldado de cachimbo na mão ou o capítulo em que um ferido pede no hospital de campanha que tapem os espelhos. Ir-me embora é como tapar os espelhos todos sobre mim.

Hoje estava capaz de me ir embora. Sem espalhafato, sem conversas, sem explicações, sem essa espiadela de passagem a verificar se o cabelo está certo.
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Não entres tão depressa nessa noite escura

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