Deixaram-me para trás quando eu tinha 7 anos. Ainda tentei correr mas era tarde demais. O atraso era demasiado grande. Chorei, esperneei, gritei por socorro e só por gritar. Por ajuda. Mas fiquei sozinha, numa rua em que o fim era longe demais para ser visto. Demasiado longínquo para ser alcançável. Deixaram-me para trás (outra vez) há poucos dias. E devo explicar que me dói a cabeça. A garganta. Doem-me as pernas, os braços, as costas e o coração que sente o frio que eu sinto. Muito frio. E apesar de tudo, isso não é superior à fome e sede de vida que me deixam sem forças. Sou vazia. De sentimentos. De pensamentos. Já fui mais inteligente e já quis salvar a humanidade que afinal não tem assim tantas qualidades. Que afinal nem merece ser salva. Mas os anos tornaram-me vazia. Não só dos pensamentos, como dos sentimentos que antes pintava em desenhos (riscos) que ocupavam páginas, que enchiam a casa (que como eu, já não é a mesma), que espalhavam e respiravam a alegria de um abraço, de ir a casa dos avós aos Domingos, de ver desenhos animados aos Sábados de manhã, de jantares em família, de Sextas-feiras chuvosas, de banhos quentes no Inverno, lençóis frescos no Verão e um sentimento de aconchego, de protecção, de “para sempre”. Até que tudo se foi desvanecendo ao longo do caminho, até que o “para sempre” se camuflou de saudade, de falta e de uma consciência prematura de “nunca mais”. Até que ecoaram berros que nunca mais deixaram de se ouvir, o pedido, a súplica por um regresso que nunca o foi nem poderia ser. Os meus pedidos são cada vez mais simples. Os meus desejos são cada vez menos ambiciosos. Os meus quereres cada vez mais modestos, e na confusão desta regressão, acabo por perder a vontade própria só para não ter que sentir frustração, para evitar odiar o mundo inteiro./Sara da Cunha
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