13 de agosto de 2009

Talvez seja como perder a noção da realidade (porque é difícil perceber se o que resta são só desculpas, provavelmente muito esfarrapadas). Como, pela primeira vez, não saber onde está a piada. São dores de maxilares tão fortes como o tamanho do esforço. E o tempo tira sempre mais um bocadinho de cada um, mais um bocadinho de todos. E é que, ao fim de alguns anos, os danos tornam-se irreparáveis, incontáveis. Talvez seja como condenar um inocente, como dar a um culpado aquilo que ele não merece. Secalhar o coração, o olhar, o tacto, a vida (que se vai perdendo como se perdem cintos, guarda-chuvas, coragem). É como querer ir, ficar e ter tudo ao mesmo tempo. Sem se fazer opções, sem se pensar muito, sem crescer ou mudar muito. É que mudar é bom, de preferência sem se perder a rotina, de preferência sem se perder nada. Nada de extremos. Tentar não pedir muito, não rir exageradamente, nunca lamentar. Sem egoísmos, sem grandes felicidades. Viver o suficiente. Só mesmo o suficiente. Sentir muito pouco e fumar ainda menos (fumar mata e é sempre preferível viver, iludir os vizinhos, não causar muito alarido, apenas inveja! o normal, para lhes dar que falar mas sem ser em demasia). Para quando nos perguntarem "então como vai a vida?", podermos responder com um sorriso (que tem tanto de belo como de cínico) "Felizmente está tudo óptimo! Nada podia correr melhor!" e virar costas, entrar em casa o mais depressa possível, pousar a carteira, agradecer pelos filhos estarem com os sogros, pelo marido ter tido um jantar da empresa e correr para o sofá.

Chorar tudo para que não sobre nada para o dia seguinte, para que o marido não repare, para que a família não se aperceba, fazer os possíveis para que ninguém note.








É que, ao tempo, não se podem pedir devoluções.

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