Tem calma! – dizias tu enquanto eu dava voltas e voltas pelo quarto. E eu não conseguia ter calma. O que podia ser por muitos motivos: por mim, pela situação no trabalho não estar muito boa, pelo João ter descido as notas, pelo meu pai estar a morrer e a minha mãe adoentada e ambos longe. Mas era por ti. Porque tu te ias desvanecendo e eu não conseguia perceber porque é que o nosso amor me fugia por entre as mãos. As minhas mãos apoiadas nas costas (como se estivesse grávida, como se a criança simbolizasse a minha e a tua vida, e a nossa união e o nosso sorriso, que já não existiam, não existiam, não existiam), o ranger do chão que me acalmava o pensamento mas não me tirava a dor do coração. “Pára com isso! Já não te posso ouvir! Se continuas assim saio de casa e podes acreditar que não volto.” – gritavas sem te preocupares com as minhas veias prestes a explodir, sem pensares em levar-me ao médico, sem quereres saber do João que estava no quarto ao lado em lágrimas. E eu podia ouvi-lo a abafar o choro na almofada (eu era obrigada a ouvir sempre tudo. Mesmo o que não queria, não é?) porque já não lhe lias histórias para adormecer, porque me gritavas, porque eu estava em depressão e tu nem notavas. Como não notavas os meus sapatos vermelhos novos, nem na lingerie que comprei para ti. “Que chata!”, pensavas enquanto cerravas os dentes e os punhos numa tentativa de autocontrolo. Eu pegava no teu cigarro, no teu isqueiro e dirigia-me para a varanda e tu, que costumavas fumar em qualquer lugar, ate na cama logo que acordavas, até durante a refeição: “Quero dormir. O fumo incomoda-me. Vê se te vens deitar ou então vai para a sala. Não estou para aturar mais as tuas neuroses!”. Mas porque é que são sempre as mulheres que são neuróticas, que exageram, que estão erradas, pensava eu enquanto, pela primeira vez, não dava importância ao que dizias e continuava a fumar o meu cigarro, no mesmo sitio. Não movi nem um pé, não dei nem um passo. Porque é que nunca são os homens que cedem, mas são sempre eles que se aproveitam da vulnerabilidade e fragilidade das mulheres (de quem era suposto gostarem) para se sentirem os donos da razão. Para se sentirem perfeitos, intocáveis. Eu a sentir vontade de me atirar da varanda que nos viu fugir um do outro no jardim e a cair, por fim, na relva por entre risos e gargalhadas, que nos viu abraçados, que via as flores que me costumavas oferecer, que viu o João a correr, a brincar. Que viu retratos de antigamente, de felicidade. A vontade a consumir-me até o olhar, os músculos, o peito, a cabeça, as mãos. Tu irritado ainda cerravas os punhos e os dentes para não te levantares e me dares um empurrão (e eu juro que não me importava que o tivesses feito). O tempo a passar, o João a chorar, a chorar, a chorar, e finalmente a adormecer ao som do silêncio que não significava calma, nem paz, mas uma raiva controlada. Um pré-suicídio. Um pré-homicídio. Uma ruptura final. Eu a controlar-me. Tu a acalmares-te. Eu a apagar calmamente o cigarro, a sentir-me tonta, a desmaiar no chão. Tu sem fazeres nada, a respirar fundo. A agradecer a Deus por eu ter morrido sem teres que fazer absolutamente nada, sem teres que descer à tua imperfeição que não acreditavas existir. A adormeceres, indiferente. Eu a ficar consciente de novo, a querer morrer de novo. Levantei-me, puxei-te o edredon (sabe-se lá as doenças que podias apanhar! Uma constipação facilmente se torna numa pneumonia… Ainda me caías nos braços e a verdade é que o João não podia crescer sem pai… E eu, António? O que ia eu fazer sem ti?) e dei-te um beijo de boa noite. Amo-te (bem baixinho ao ouvido). O que eu não podia saber ou adivinhar, é que enquanto eu me arrependia de te ter deixado aborrecido (porque tu trabalhas imenso, não mais que eu, mas ainda assim imenso, e chegas cansado a casa e eu não tenho o direito de te deixar irritado ou chateado. Tenho que fazer o jantar, lavar-te a roupa, passá-la a ferro, deitar o menino e dar-te uma foda, caso te apeteça… Um homem tem as suas necessidades não é?), tu sonhavas com a Cristina que mora no 2º piso. Amo-te. E adormeci./Sara da Cunha
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