11 de abril de 2009

À noite a solidão é um bocado difícil. Claro que posso ler, posso ouvir música, posso alugar um filme no clube de vídeo, posso telefonar à Esmeralda, posso fazer uma hora de crochet antes de me deitar mas falta-me o Renato aqui em casa, o Renato na poltrona em que se sentava sempre, o Renato a resolver as palavras cruzadas do jornal ou a olhar para o tecto porque nunca foi de falar muito, dava-me um beijo, perguntava

- A mulher-a-dias passou-me as camisas a ferro?

e se eu me pendurava nele

(o Renato é alto e eu não sou muito grande)

a querer fazer-lhe festas na barba

(adoro fazer festas na barba do Renato)

ele desembaraçava-se da minha ternura com um gesto

- Hoje tomei banho de água quase fria porque a botija de gás está no fim tirava a caneta do casaco, punha os óculos e começava a solucionar as palavras cruzadas enquanto eu ia para a cozinha aquecer o jantar. Assim que acabava o jantar chamava-o

- Mesa querido

e o Renato sem ouvir, ave, cinco letras, pombo, réptil, seis letras, víbora, e eu

- Mesa querido

o Renato de dentro do jornal, sem se mexer

- Vou já

o jantar gelado, e eu

- O jantar fica gelado Renato

o Renato a dirigir-se para a mesa a resmungar

- Que chatice

a pôr o guardanapo ao pescoço, a olhar para mim indignado, a protestar

- Não consigo comer a sopa assim porque é que não aqueceste esta bodega?

eu na cozinha a aquecer a sopa outra vez e o Renato da sala

- No dia em que houver um jantar em condições nesta casa deito foguetes

eu aflita

- Chamei-te duas vezes amor

o Renato com o jornal em cima da toalha, mamífero, três letras, cão

- Se me tivesses chamado eu tinha vindo

o Renato sem reparar em mim a fechar o jornal e a ligar a televisão com o comando

- Estas refeições são uma seca não temos nada para dizer um ao outro

a deixar-me levantar a mesa sem me ajudar com um prato que fosse, sentado na poltrona a mudar de canal enquanto eu arrumava a loiça na cozinha

- Para além disso, passo os serões sozinho sem falar com ninguém se é para viver desta maneira prefiro voltar para o meu pai

eu a correr para a sala a enxugar as mãos a um pano e o Renato

- No caso de pensares que é agradável morar com uma mulher que nunca tira o avental e que nunca se arranja para mim enganas-te

eu no quarto a maquilhar-me, a mudar de vestido, a pôr saltos altos, a passar a escova no cabelo, a parar no umbral para o Renato ver e o Renato

- Essa saia é horrível já te expliquei mais de quinhentas vezes que essa saia é horrível

eu a começar a chorar, a esconcer a cara com a mão e o Renato a levantar-se, a procurar as chaves do carro, a regressar para levar o jornal que esquecera, o Renato da porta

- Mulheres neuróticas em lágrimas por tudo e por nada não aturo

eu no patamar

- Renato

o Renato um andar abaixo

- Não precisas de um marido precisas de um psiquiatra Cristina

de modo que desde há dois meses a solidão é um bocado difícil. Claro que posso ler, posso ouvir música, posso alugar um filme no clube de vídeo, posso telefonar à Esmeralda, posso fazer uma hora de crochet antes de me deitar, mas falta-me o Renato aqui em casa, falta-me a barba do Renato

(adoro fazer festas na barba do Renato)

falta-me alguém de quem possa tomar conta, para quem cozinha, para quem pedir à mulher-a-dias para engomar as camisas para além de me custar admitir que ele não volta de forma que se a mulher-a-dias se espanta

- As gavetas do senhor Renato estão vazias

Respondo

- Foi de serviço a Coimbra e teve de levar a roupa

porque quero pensar que logo à noite ele vai chegar, me vai dar um beijo e perguntar

- Mudaste a botija de gás?

e se vai instalar na poltrona como se nada fosse a resolver as palavras cruzadas do jornal.


António Lobo Antunes

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