À noite a solidão é um bocado difícil. Claro que posso ler, posso ouvir música, posso alugar um filme no clube de vídeo, posso telefonar à Esmeralda, posso fazer uma hora de crochet antes de me deitar mas falta-me o Renato aqui em casa, o Renato na poltrona em que se sentava sempre, o Renato a resolver as palavras cruzadas do jornal ou a olhar para o tecto porque nunca foi de falar muito, dava-me um beijo, perguntava - A mulher-a-dias passou-me as camisas a ferro?
e se eu me pendurava nele
(o Renato é alto e eu não sou muito grande)
a querer fazer-lhe festas na barba
(adoro fazer festas na barba do Renato)
ele desembaraçava-se da minha ternura com um gesto
- Hoje tomei banho de água quase fria porque a botija de gás está no fim tirava a caneta do casaco, punha os óculos e começava a solucionar as palavras cruzadas enquanto eu ia para a cozinha aquecer o jantar. Assim que acabava o jantar chamava-o
- Mesa querido
e o Renato sem ouvir, ave, cinco letras, pombo, réptil, seis letras, víbora, e eu
- Mesa querido
o Renato de dentro do jornal, sem se mexer
- Vou já
o jantar gelado, e eu
- O jantar fica gelado Renato
o Renato a dirigir-se para a mesa a resmungar
- Que chatice
a pôr o guardanapo ao pescoço, a olhar para mim indignado, a protestar
- Não consigo comer a sopa assim porque é que não aqueceste esta bodega?
eu na cozinha a aquecer a sopa outra vez e o Renato da sala
- No dia em que houver um jantar em condições nesta casa deito foguetes
eu aflita
- Chamei-te duas vezes amor
o Renato com o jornal em cima da toalha, mamífero, três letras, cão
- Se me tivesses chamado eu tinha vindo
o Renato sem reparar em mim a fechar o jornal e a ligar a televisão com o comando
- Estas refeições são uma seca não temos nada para dizer um ao outro
a deixar-me levantar a mesa sem me ajudar com um prato que fosse, sentado na poltrona a mudar de canal enquanto eu arrumava a loiça na cozinha
- Para além disso, passo os serões sozinho sem falar com ninguém se é para viver desta maneira prefiro voltar para o meu pai
eu a correr para a sala a enxugar as mãos a um pano e o Renato
- No caso de pensares que é agradável morar com uma mulher que nunca tira o avental e que nunca se arranja para mim enganas-te
eu no quarto a maquilhar-me, a mudar de vestido, a pôr saltos altos, a passar a escova no cabelo, a parar no umbral para o Renato ver e o Renato
- Essa saia é horrível já te expliquei mais de quinhentas vezes que essa saia é horrível
eu a começar a chorar, a esconcer a cara com a mão e o Renato a levantar-se, a procurar as chaves do carro, a regressar para levar o jornal que esquecera, o Renato da porta
- Mulheres neuróticas em lágrimas por tudo e por nada não aturo
eu no patamar
- Renato
o Renato um andar abaixo
- Não precisas de um marido precisas de um psiquiatra Cristina
de modo que desde há dois meses a solidão é um bocado difícil. Claro que posso ler, posso ouvir música, posso alugar um filme no clube de vídeo, posso telefonar à Esmeralda, posso fazer uma hora de crochet antes de me deitar, mas falta-me o Renato aqui em casa, falta-me a barba do Renato
(adoro fazer festas na barba do Renato)
falta-me alguém de quem possa tomar conta, para quem cozinha, para quem pedir à mulher-a-dias para engomar as camisas para além de me custar admitir que ele não volta de forma que se a mulher-a-dias se espanta
- As gavetas do senhor Renato estão vazias
Respondo
- Foi de serviço a Coimbra e teve de levar a roupa
porque quero pensar que logo à noite ele vai chegar, me vai dar um beijo e perguntar
- Mudaste a botija de gás?
e se vai instalar na poltrona como se nada fosse a resolver as palavras cruzadas do jornal.
António Lobo Antunes
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