11 de abril de 2009

Eu penso que o tempo te vai substituir, de alguma maneira. E espero que ele passe, que pare, que corra. Mas o tempo não é suficiente, horas e minutos nunca foram sequer parecidos contigo, nem com ninguém (mas muito menos contigo).
Penso que daqui a um ano já não me vou lembrar do teu nome, que quando passar por tua casa não vou olhar para a tua janela, nem para a porta do teu prédio, que não vou esperar uma mensagem tua de “Bom Natal” e que quando passar por ti na rua não vou sentir as pernas a fraquejar, nem baixar o tom de voz, nem sentir a respiração a faltar, nem as mãos a tremer, porque já nem vou saber quem és. Nem que existes.
Mas o ano passou. Passou um, passaram dois, três. E quando passas, é como se de um sismo se tratasse. Como se o mundo parasse, e mudasse, e gritasse. Deixaste crescer a barba, compraste roupas novas que eu nunca vi, o teu corpo mudou e estás quase um homem.
Eu nem cheguei a dar-te a prenda. Por minha vontade, nem a tinha comprado. Perdeu-se tal como se foi perdendo a nossa amizade (se assim lhe quiseres chamar) pelas ruas, levada pelo vento, derretida pelo sol, congelada pelo frio. E eu penso que o tempo a vai trazer de volta mas já se foram 36 passas, 3 copos de champagne e a minha espera não é interrompida. E enquanto eu berro o teu nome, tu ris-te com elas, fumas, bebes, és uma pessoa que não eras, que nunca serás e eu não entendo muito bem porquê. Da mesma forma que não entendo porque nunca mais me reconfortaste, porque nunca mais me deste sermão nem me olhaste com reprovação. Ao mesmo tempo que deixei de te fazer rir, que deixaste de fazer planos comigo.
Não te conhecia essa capacidade. Vestiste um casaco às riscas, apanhaste o autocarro oposto e não voltaste. Mas as memórias não partiram contigo. Deixaste-as na linha do comboio, saíste para uma zona segura e nem esperaste para assistir à sua morte. Continuaste, de telemóvel na mão, mochila às costas e o teu ar aluado que às vezes carrega também um sorriso. Continuaste, com o teu ar arrogante que esconde a pessoa que eu consegui conhecer, melhor do que pensei. Continuaste, com o teu ar simpático que, provavelmente, esconde a pessoa fria em que te transformaste. Mas não voltaste. Não me levaste contigo. Nem telefonaste a contar como correu a viagem, para me sossegar. Para me deixar continuar também eu própria. Não sabia que para ti, era tão simples como mudar de perfume, porque em mim, isso não faz qualquer efeito. Eu experimento, volto a experimentar, troco, mudo, mudo-ME, mas nada resulta.
Eu sempre fui mais do que aquilo que tu me consideravas. Tu nunca valeste tanto como eu te achava. Um olhar de desprezo como despedida e a última lágrima. Mesmo sabendo que o meu desejo é utópico, desejo nunca mais ver-te. Ou, se te vir, que não te veja realmente como não vejo as formigas, nem os sentimentos que nada têm de concretos, nem o sol num dia chuvoso e encoberto. Amei-te como a mais ninguém. Disso sei. Isso não posso mudar. Mas os tempos no futuro sou eu que controlo e, a esses, não lhes pertences. Mesmo que quisesses como quiseste (em tempos) fazer planos comigo.


/Sara da Cunha

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